Conhecer (mente) para Preservar (coração) parte de uma premissa simples: só é possível preservar aquilo que se conhece e reconhece como valioso. A arquitetura da paisagem torna-se, assim, instrumento para aproximar pessoas e biodiversidade, traduzindo a riqueza estética, ecológica e cultural da Mata Atlântica em uma experiência espacial contemporânea.
Criado para a CASACOR São Paulo, no Parque da Água Branca, o jardim propõe um encontro com a Mata Atlântica do Sudeste a partir de sua própria linguagem. A arquitetura natural dessas paisagens se transforma em jardim através de uma composição naturalista. Formas, texturas, estratos e relações observados nas diferentes fisionomias do bioma orientam o desenho, tendo a flora nativa como matéria central do projeto.
Ao revelar a Mata Atlântica como referência estética, o projeto propõe também uma revisão do imaginário paisagístico brasileiro, historicamente influenciado por referências importadas. Mais de 100 espécies ornamentais nativas compõem o jardim, todas produzidas em escala e disponíveis para uso no paisagismo. Provenientes de parcerias com pequenos e médios produtores paulistas, elas demonstram que biodiversidade, valor ornamental e viabilidade de aplicação podem coexistir.
A mesma lógica orienta as escolhas construtivas. Concebido como uma arquitetura efêmera, o projeto adota princípios de baixo impacto e descarte zero. O piso permeável e autoportante foi simplesmente apoiado sobre o asfalto existente e montado a seco, por encaixe, como um grande quebra-cabeça. Sua geometria de colmeia, inspirada na natureza, recebeu estampas florais em cores que dialogam com a arquitetura histórica. Nenhuma peça foi cortada, permitindo a desmontagem e o reaproveitamento integral do material.
Mobiliários e vasos incorporam materiais característicos das paisagens da Mata Atlântica, como rocha, areia e madeira. Painéis produzidos com madeira reaproveitada e redes de pesca descartadas, recolhidas em praias, apresentam centenas de fotografias da biodiversidade brasileira e transformam o percurso em uma experiência de descoberta.
A efemeridade, porém, não encerra o projeto. Após a mostra, os painéis seguem em itinerância por escolas infantis da Serra da Mantiqueira. Uma cartilha reúne todas as espécies utilizadas e indica seus produtores, conectando paisagistas à cadeia produtiva da flora nativa e ampliando o alcance da iniciativa.
Conhecer desperta pertencimento; pertencimento cria vínculo. É no encontro entre desenho, conhecimento e afeto que a paisagem se torna também um caminho para a preservação.